Saúde

Uso incorreto de agrotóxicos pode ter causado a morte de milhões de abelhas no RS

O inseticida Fipronil é apontado como um dos causadores do problema

No início deste ano, um grande número de colmeias foi destruído, do dia para a noite, no Noroeste gaúcho. Só em São José das Missões, cidade próxima a Palmeira das Missões, cerca de 200 colmeias foram perdidas.


Em três propriedades próximas a Frederico Westphalen, foram 82 caixas atingidas. Segundo informações da EMATER, a principal causa do problema teria sido a contaminação das abelhas pelo inseticida Fipronil, altamente tóxico. O produto teria sido misturado com o herbicida Glifosato, visando uma maior economia - prática que é proibida pela legislação - e aplicado nas plantações de soja. 
Acontece que as abelhas que tiveram contato com os produtos tóxicos, ao retornarem para as colmeias, acabaram por contaminar todo o resto de sua população, comprometendo até a vinda de novas abelhas para a caixa onde eram armazenadas.


Segundo apurou reportagem do Canal Rural, entre 2014 e 2017, de 200 amostras de abelhas contaminadas, 70% tiveram contato com o Fipronil. Casos parecidos com o acontecido no Brasil, também ocorreram no Reino Unido, França e África do Sul, que levaram a União Europeia a proibir o uso desse agrotóxico em 2017.


Na Região Celeiro, uma das maiores perdas ocorreu recentemente em Campo Novo, onde o apicultor Claudimir Filipetto perdeu mais de 130 colmeias, tendo um prejuízo estimado em cerca de R$ 80 mil. A principal desconfiança do produtor, assim como nos outros casos, é de que o uso indiscriminado de agrotóxicos tenha infectado sua produção. “As abelhas foram coletadas para fazer análise, pelo pessoal da Vigilância Sanitária de Coronel Bicaco, para ver se foi veneno, a gente sabe que foi, mas precisa saber qual foi o tipo”, alega.


Assim como em toda a região, existe uma predominância de lavouras de soja nas proximidades da residência do apicultor, justamente as plantações de maior aplicação do inseticida Flipronil e do herbicida Glifosato, encontrados nas amostras dos outros casos recentes de perda de colmeias. Ao ser questionado sobre de quem seria a responsabilidade pelas perdas, Claudimir disse que “10% é mau uso do agricultor, mas 90% disso são dos técnicos [agrônomos] porque isso [problemas no soja] são que nem uma doença, a gente vai no médico e ele receita o medicamento, então eu atribuo isso aos técnicos, que estão sendo mal orientados pelas empresas onde trabalham, ou até pela parte financeira, na hora de recomendar o uso desses agrotóxicos”, relata o apicultor.


Claudimir revela, ainda, um grande desânimo, não sabendo nem mesmo se irá continuar nesse ramo. “Da vontade até de parar de produzir, porque eles [produtores de soja], querem produzir de qualquer maneira [como através de agrotóxicos]. A gente precisa limpar, organizar, tratar, esperar chegar a safra e aí ainda acontece uma coisa dessas. Esse era o ano que eu mais precisava desse recurso, a gente nem sabe o que vai fazer agora”, finaliza.