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O que está acontecendo com as abelhas no Rio Grande do Sul?

A morte de uma quantidade imensa de abelhas tem chamado atenção em todo o país
["Rodrigo Stopiglia mora no interior de Chiapetta. Trabalha com apicultura desde crian\u00e7a, quando ajudava o pai. S\u00e3o 30 colmeias que cria e sabe da import\u00e2ncia do animal para a poliniza\u00e7\u00e3o. De acordo com ele, este ano sua cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi atingida. \u201cO problema \u00e9 o uso inadequado de defensivos que s\u00e3o usados em aplica\u00e7\u00e3o a\u00e9rea. A\u00ed pega a abelha que est\u00e1 na flor, a abelha volta para a colmeia e contamina as outras. Aqui n\u00e3o fui atingido este ano, eu disse para os vizinhos aplicarem os produtos certos para minhas colmeias n\u00e3o sofrerem com o Fipronil\u201d"]

“Um mundo sem maçãs, sem peras, abacates, melões, abóboras, melancias, cerejas, pimentas, chocolate, café, enfim, a lista não tem fim”.  Assim começou a introdução da matéria do periódico semanal da Rede Globo – Fantástico -, no último domingo (19). Em pauta: a preocupação com a morte de 500 milhões de abelhas. Destas, 400 milhões de mortes aqui no Rio Grande do Sul de dezembro de 2018 a abril de 2019. Os números são alarmantes. Mas o que está acontecendo? Fomos em busca de apicultores da Região Celeiro e também especialistas do agronegócio.  O técnico em agricultura Osmar Menegon destacou que das 191 culturas agrícolas utilizadas no Brasil 114 (60%) são visitadas por insetos polinizadores, as abelhas predominam representando 66% das espécies polinizadores, porém os besouros, borboletas, mariposas, as aves e os percevejos fazem parte da lista. Ou seja, os prejuízos ambientais e econômicos são enormes, além da produção de mel, são essenciais para a polinização de várias espécies de plantas, em lavouras e em matas nativas.

Aroni Sattler é  professor da UFRGS, engenheiro agrônomo e desde 1973 trabalha na área de sanidade das abelhas. Foi ele quem nos narrou um trabalho feito com enxames de abelhas e o Fipronil – agrotóxico citado na matéria do Fantástico. Segundo ele, casos de mortes de enxames se tornaram mais recorrentes na última década. “Devido ao meu trabalho, sempre recebi amostras de abelhas para análises, e vim percebendo que cada vez mais não havia sinais de doenças nos insetos que explicassem mortandades tão agudas”, disse. No ano passado, quando procurado por um laboratório privado, para orientar um trabalho sobre coleta de amostras em casos de mortandade foram analisados 30 casos de grandes baixas em enxames no Rio Grande do Sul. Os resultados mostram que cerca de 80% ingeriram ou tiveram contato com Fipronil antes de morrer. “Pelos sinais clínicos e pelo histórico apresentado pelos apicultores, percebemos que os agricultores da região misturavam o Fipronil no tanque junto com dessecantes desde o preparo do solo, passando pela fase vegetativa do cultivo e depois na hora da colheita. Se trata de um inseticida, e as abelhas são um tipo de inseto, por isso o ingrediente é bastante tóxico para elas”, detalhou.

Outro entrevistado foi Rodrigo Stopiglia, que mora em São Judas, interior de Chiapetta. Rodrigo, assim como o professor Aroni, acredita que a parceria entre o agricultor e o apicultor deveria ser mais efetiva: “ Já tive anos que perdi quase toda a minha produção, são 30 caixas de abelhas, sobraram apenas 8. Este ano não fui atingido, mas pedi para os meus vizinhos pra ter cuidado com o uso do Fipronil”. Já Aroni lembrou que “o agro é importante, não há dúvidas disso. Mas a que custo está se produzindo, e qual o efeito que isso tem? O apicultor está desamparado, e o agro ganha com as abelhas também”, ressaltou o especialista.

Osmar Menegon, que também é tecnólogo em administração rural, lembrou  da impotância de o agricultor adquirir seus defensivos em lojas onde existam profissionais habilitados e capacitados  para a função de prescrever, recomendar, orientar e conscientizar o produtor para a melhor escolha e uso dos produtos.  E afirmou com segurança que o uso dos defensivos agrícolas dentro das recomendações do registro apresentam segurança ao meio ambiente:

 “O Rio Grande do Sul é o principal estado em produção de mel e seus derivados sendo uma atividade importante para principalmente pequenos produtores.  A abelha é vida, sem ela não somos nada”. Osmar lembrou que as mortes das abelhas podem ocorrer de várias formas, por desmatamento, por predadores, por doenças, pelo clima e por intoxicação química. Sobre os agrotóxicos, detalhou: “Sabemos que o impacto para as abelhas e outros insetos por alguns produtos químicos é muito agressivo devido ao raio de 3 a 5 km que estes insetos prospectam em busca de alimentos. O fato de aplicar esses produtos na floração da cultura se agrava, usar o produto errado agrava mais ainda. Como profissional Técnico da área agronômica podemos afirmar com segurança que ouso dos defensivos agrícolas dentro das recomendações do registro apresentam segurança ao meio ambiente. Em muitas situações ocorrem atos criminosos com uso inadequado de produtos agrícolas sem registro, de fonte duvidosa sem recomendação de um profissional, com doses e horário de aplicações totalmente erradas, promovendo danos a todos nós. Por isso o agricultor deve procurar profissionais habilitados e capacitados para esta função. A agricultura apesar de sua importância fundamental para o país e para cada cidadão tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas não condizente com a realidade. É importante punir os infratores com rigor para que a realidade da agricultura transpareça em seu caráter de sustentabilidade. Os insetecidas com o ativo neonicotinóides  são considerados uma classe de insetecidas que agride menos o meio ambiente comparando com outros, mas a função deles é matar insetos e são muito eficientes nisso, bom para as pragas e ruim para os insetos polinizadores. É  fundamental que os técnicos da saúde, agronômia e a classe cientifica busque com rapidez as causas reais da mortandade das abelhas para não termos duvidas do ocorrido e não ficarmos em suposições”.

 

A morte das abelha e as leis

De acordo com a Lei Federal 7.802/89, a Lei dos Agrotóxicos, quem deve fazer a fiscalização do uso são os órgãos estaduais. Portanto, todo problema decorrente do uso desses químicos deve ser informado às secretarias de Meio ambiente ou de Agricultura dos estados.

Há base legal para considerar a morte de abelha como crime ambiental. De acordo com o artigo 56 da Lei de Crimes Ambientais é crime “Produzir, processar, embalar, importar, exportar, comercializar, fornecer, transportar, armazenar, guardar, ter em depósito ou usar produto ou substância tóxica, perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou nos seus regulamentos”.

A maioria dos casos recentes ocorreu no Rio Grande do Sul, onde, segundo a Câmara Setorial de Apicultura da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do estado, foram 400 milhões de baixas desde dezembro do ano passado. O estado é o maior produtor apícola do país, com mais de 400 mil colmeias, de acordo com a Emater. A produção de mel supera 6 mil toneladas por safra, cerca de 15% do total brasileiro.

A Secretaria recebeu comunicados de óbitos em 10 municípios: Jaguari, Sant’Ana do Livramento, Alegrete, Santiago, Livramento, Bagé, Mata, Cruz Alta, Boa Vista do Cadeado, Santa Margarida. Isso significou mais de 1% das criações de abelhas dizimadas. “O estado tem cerca de 463 mil colmeias. Dessas, cerca de 5 mil foram completamente perdidas. O prejuízo está em torno de 150 toneladas de mel”, conta Aldo Machado dos Santos, coordenador da Câmara Setorial de Apicultura gaúcha.