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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020

Mulheres da terra: de ajudantes a protagonistas

Mulheres da terra: de ajudantes a protagonistas

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Uma história de vida baseada no amor pelo cultivo da terra. Uma mulher que nunca se escondeu atrás do seu gênero, enfrentou tempestades, dificuldades e venceu todas, tornando-se prova e exemplo de vida. Traz consigo os ensinamentos dos seus mais de 60 anos, os quais também foram repassados aos seus sucessores, tendo como principal premissa, o valor da terra e o empenho nas suas próprias conquistas.
Meirice Fritzen é daquelas mulheres que carregam o tradicionalismo antigo, da época em que trabalho era apenas trabalho, sem qualquer rotulação quanto à capacidade, baseado em preceitos de masculino ou feminino. Desde os seus quatro anos (registro das primeiras memórias) trabalhava com os pais, colhendo e plantando batatinhas, cultura que era utilizada no trato dos porcos, principal renda da família na época.
“Quando o mercado da soja chegou a nossa região, meus pais foram um dos primeiros agricultores que investiram na cultura e passaram a plantar e colher o grão, na linha Modesta, em Chiapetta, onde residíamos. Como tudo era novo, não tinha agrotóxicos, tudo era feito de forma braçal, capinávamos as ervas, cuidávamos para que o grão rendesse o máximo possível”, recordou.
Naquele tempo, homens e mulheres não eram diferenciados na hora de dividir as tarefas, porém, uma discriminação era feita: quem podia estudar. “Meu pai pensava que mulheres não podiam estudar e eu lamento por isso. Porém, no restante, estávamos sempre unidos, com respeito, consideração e empenho pelo trabalho”, disse.
Para Meirice, uma das datas mais marcantes da família era o Natal. “Era quando recebíamos a recompensa pelo nosso trabalho do ano. Lembro-me, como se fosse hoje, a minha primeira boneca de porcelana. Meu pai sempre dizia que merecíamos, pois, este era o fruto dos nossos esforços no trabalho. Isso nos dava orgulho e desencadeava o desejo de fazer ainda melhor no próximo ano”.
O tempo seguiu seu curso e Meirice namorou e casou. Porém, sua profissão, agricultora, não mudou, seguia lavrando as lavouras com juntas de boi e cultivando a terra que lhe trazia o sustento. “Os dias de chuva nunca foram de descanso, por mais que não se pudesse trabalhar na lavoura, tínhamos o serviço de fazer o polvilho, cuidar da casa, ajudar na produção de pão, bolachas. Nossa rotina começava as 05h, tirando o leite, ao voltar para casa, lava roupa, tomava café e ia para a lavoura”, recorda.
A modernidade veio e com ela o maquinário agrícola, que amenizou o trabalho braçal. Porém, a presença diária nas lavouras ainda é exigida. “Conseguimos evoluir. Adquirimos terras e maquinários para ajudar na lida diária. O cultivo com porcos e demais animais, que antes era a principal fonte, passou a ser para consumo próprio. A lavoura passou a ser protagonista do nosso sustento”, disse.

Depoimento

“Passei essa mesma educação aos meus filhos, Suelin, Luciano e Jonathan, que assim como eu foram criados em meio ao campo. Minha principal função sempre foi no plantio, alimentava com os grãos e ficava na ‘sapata’ da plantadeira puxando os bags para que o grão não fosse perdido, além é claro de todo os outros trabalhos, afinal era eu a assistente. Já até engraxei o maquinário. Sempre tive comigo o amor pela terra e pelo estudo, afinal estes são os únicos bens que ninguém nos tira. E foi por esse motivo que acabamos vindo morar na cidade, para que minha filha pudesse cursar o ensino médio. Hoje passei a missão de cuidar das nossas terras ao meu filho mais velho, minha última safra foi 2018. Sinto muita falta, porém é preciso dar continuidade e aceitar o tempo. Nós mulheres sempre enfrentamos muito machismo e somos seres de muita visão, não só para negócios, mas de compreensão. Para mim a terra segue sendo vida, dela se tira todos os frutos. Só precisamos alimentá-la para que ela gere e se multiplique”.