MENU
Sábado, 27 de Fevereiro de 2021

DEUS SIVE NATURA

DEUS SIVE NATURA

Compartilhe

Já fui Ateu, isto é, fiquei ainda mais cético, porém, ao ler Spinoza e por perceber que neste mundo a justiça não funciona como deveria, por puro e bom senso voltei a crer num “Deus”, mas não é novidade isso, já escrevi inúmeras vezes sobre, quem me acompanha sabe perfeitamente.
Não acredito num ser de barba branca, sentado nos céus, julgando a todos e castigando todo mundo, dizendo que se você não seguir tais ordens será condenado n’outra vida, etc. Porém, creio num Deus sim – calma lá! – acredito que existe uma força superior que rege o universo, ao qual os cristãos chamam de Deus, os Hindus de Bramá – seguindo a Trimurti – os budistas de Buda ou Siddartha Gautama, os Judeus de YHWH (Jeová ou Javé) e por aí vai. Essa “força superior” é o motor do universo e aí eu tenho o meu credo, que é baseado no “Deus de Spinoza”, filósofo holandês do século XVII.
Spinoza dizia que os textos bíblicos são apenas simbolismos e que dispensam qualquer abordagem mais racional, isto é, Deus é o universo e não o que cada religião nos diz que é – pois todas têm o que falar e defenderão suas teses e é isso – É bastante claro que Spinoza foi perseguido pela comunidade judaica por suas colocações heréticas, segundo a história nos conta. Não havia espaço para a ciência naquele tempo – e hoje tem?
Baruch criticou fortemente a ideia de um ser julgando todos e da forma como descrevi no começo desse texto, para Spinoza, Deus seria a cara de quem o adorava, pois Deus é chamado de substância, isto é, não depende de outra coisa para existir. Deus se confunde com a nossa realidade, é tudo que nos envolve, disse então: “Deus sive natura”, traduzindo: “Deus, ou seja, natureza”.
Muito interessante, não?
Essa substância teria infinitos atributos, mas só conhecemos dois: extensão e pensamento. Singularidade seria eu e você, as estrelas, os planetas, micróbios, etc. Parece confuso? Logo de cara é mesmo! Porém, a filosofia serve para questionar e não para afirmar, portanto, vou explicar mais um pouco e de forma clara e objetiva, pois considero a definição do Deus de Spinoza como a mais cética, ponderada e racional. Sim, é estranho falar de religião e racionalidade na mesma frase, né, mas com Spinoza é assim mesmo. Vamos lá!
Para Spinoza a alma é mortal, assim como nossos corpos, e todas as religiões deveriam ser pregadas o amor ao próximo, sem julgamentos, sem rotulações, sem preconceitos, sem toda essa raiva que vem com o moralismo. Spinoza é puro amor! Era apenas um filósofo incompreendido do seu tempo e que poucos o conhecem hoje em dia, principalmente os mais jovens que não estão nem aí pra ler um bom livro filosófico ou conhecer as coisas do passado, seus mistérios, sabedorias, conhecimentos que ali os esperam.
Spinoza pensava diferente dos estoicos – os quais digo que pertenço – pois para ele, não se combate as emoções com a razão, isto é, não se combate o ódio com mais ódio, mas sim com amor, o ciúme se combate com confiança, covardia se combate com coragem, etc. É encantador conhecer Spinoza e toda a sabedoria que dele vem, repare bem que falo aqui de sabedoria e não de conhecimento ou informação, cautela, é preciso discernir uma coisa da outra.

Mas, o que é o LIVRE ARBÍTRIO para Spinoza?
Saia perguntando por aí para qualquer um na rua, “para ti, o que é o livre arbítrio?”, é bastante provável que lhe dirão, “Para mim é liberdade, ir pra onde eu quero, fazer o que der na telha e com quem gosto e a hora que eu quiser”. Acredite isso é doxa, a maioria dirá isso, eu já cansei de ouvir.
Não seja raso, vamos aprofundar as reflexões sobre esse importante tema, deixe a superficialidade para os que não gostam de pensar mais.
Dizia Spinoza que o livre arbítrio é uma mera ilusão, pois o homem acredita ser livre, quando na verdade não é isso que ocorre, pois suas ações já são determinadas e ignoramos as causas dessas ações. O que Spinoza quer dizer é que podemos conhecer tudo o que é real, isto é, o mundo e suas maravilhas devem – e podem – ser conhecidas a fundo, pois o real é racional, e nos é permitido conhecer através da ação.
O Deus de Spinoza não quer rotulações, dogmas, ódios, falsidades, ganância, corruptos, canalhice e todas essas coisas ruins que existem por aí, Spinoza nos mostra que podemos ter religiosidade sem religião, isto é, eu acredito em uma força maior, motor do universo e ponto. Não quero colocar meu credo em instituições religiosas, quero respeitar todos, com seus pensamentos e buscar aumentar o conatus, que ele chamara de potência de buscar o aperfeiçoamento em nosso ser.
Dizia Spinoza:
“Tenho uma concepção de Deus e da natureza totalmente diferente da que costumam ter os cristãos mais recentes, pois afirmo que Deus é a causa imanente, e não externa, de todas as coisas. Eu digo: Tudo está em Deus; tudo vive e se movimenta em Deus”. E acrescenta, dizendo: “Por ajuda de Deus, entendo a fixa e imutável ordem da natureza, ou a cadeia de eventos naturais. (…) A partir da infinita natureza de Deus, todas as coisas (…) decorrem dessa mesma necessidade, e da mesma maneira, que decorre da natureza de um triângulo, de eternidade a eternidade, que seus três ângulos são iguais a dois ângulos retos”
Não estou sozinho nessa não!
Einstein acreditava no Deus de Spinoza, tanto que dissera em uma entrevista a um escritor chamado George Viereck certa vez:
“Eu sou fascinado pelo panteísmo de Spinoza. E admiro ainda mais as suas contribuições para o pensamento moderno. Spinoza é o maior dos filósofos modernos porque ele é o primeiro que trata a alma e o corpo como uma coisa só e não como duas coisas separadas”.
Quero refletir sempre! Ir além! Conhecer coisas novas, experiências que exijam coragem, pois o absurdo da vida é assim mesmo, pra quem tem vontade de viver a banalidade não tem vez, tão pouco a ganância e hipocrisia.
Aqui encerro com uma célebre frase de Spinoza, obrigado pela leitura.
“Não rir, nem lamentar-se, nem odiar, mas compreender.”

error: Content is protected !!